
A música proibida
Logo depois da revolução Islâmica, em 1979, quando os Aiatolás tomaram o poder do país, foram criadas novas leis para “islamizar” os costumes, a política, etc. Uma das mudanças, por exemplo, limitava o direito das mulheres. Elas não puderam mais exercer cargos públicos (por exemplo, Shirin Ebadi perdeu o cargo de juíza e iniciou uma luta por direito das mulheres no país, ganhando o prêmio Nobel da paz em 2003). Nos tribunais, o testemunho de uma mulher vale metade do testemunho de um homem. Elas não podem viajar sozinhas, a não ser que tenham uma autorização, por escrito, do marido ou de um parente homem. Têm de se cobrir todas, e as “leis dos costumes” são mais rígidas com elas que com os homens.
Outra mudança causada pela revolução foi na música: Ela foi completamente proibida. Isso mesmo: Toda música foi proibida no país, com direito a instrumentos musicais sendo queimados na rua. Eu não acreditei quando me contaram isso, então pesquisei na internet, e, entre outras fontes confirmando isso, encontreiesse artigo do New York Times. Segue a tradução do 3º parágrafo:
“Desde que a revolução de 1.979 substituiu uma monarquia simpatizante com o ocidente por um Estado islâmico, o lugar da música na cultura iraniana tem sido precário. Quando o Aiatolá Ruhollah Khomeini subiu ao poder no mesmo ano, ele proibiu todos os tipos de música: gravações, concertos, até mesmo o porte de instrumentos. Khomeini afirmou ao Kayhan, o maior jornal conservador no Irã: “A música é como uma droga. Quem adquire o hábito já não pode dedicar-se a atividades importantes... Temos de eliminá-la completamente”. Escolas de música foram fechadas, e era considerado um pecado assinar um documento contendo a palavra música, apesar de muitas pessoas terem mantidos os seus instrumentos e continuado a tocar em privado sob um risco considerável.” – New York Times, 2003.
No final dos anos 90 essa proibição se flexibilizou, sendo permitida música iraniana e depois permitida também a música ocidental. Houve até mesmo alguns shows de rock. Hoje já existe no centro da cidade uma rua só com lojas de instrumentos musicais (violões, guitarras, teclados, pianos...), mas nesses últimos anos as músicas estrangeiras voltaram a ser proibidas em público.
O traficante de instrumentos musicais
Morando aqui em Teerã, tenho feito aula de guitarra nas horas vagas com um professor da minha idade, Farzad, cujo pai era músico profissional antes da revolução. Quando a revolução estourou e a música foi proibida, ele teve de esconder todos os instrumentos musicais em casa e trabalhar com algo menos “criminoso”.
Algum tempo depois da revolução, quando Farzad ainda era pequeno, o pai adoeceu e veio a falecer. A mãe dele, sem ter como sustentar a casa, teve de recorrer à atividade ilícita: vender os instrumentos que tinham ficado em casa. A venda foi como qualquer outro tráfico: Ela procurou receptadores, fechou os preços (muito abaixo do valor real da mercadoria) e acertou as entregas. Farzad estava com ela durante uma entrega, e me contou como foi:
"Eles tiraram os instrumentos de casa (violões, violinos, baixos, teclados...) em caixas de eletrodomésticos, para disfarçar, e colocaram tudo no porta-malas do carro. Ela dirigiu com o material ilegal no carro até a casa do receptador, com medo de ser parada pela polícia e flagrada com o produto. Chegou à casa do receptador, olhou para os lados para ver se não tinha ninguém observando, entrou com os equipamentos, recebeu o dinheiro e foi embora."
Banda Ahoora
No Irã é proibido tocar música ocidental em público. Show de Rock, nem pensar. Um concerto de um heavy metal? Impossível!
Depois de viver mais de 8 meses em Teerã, “por obra do destino” fui apresentado ao heavy metal iraniano por um amigo: conheci o pessoal da banda Ahoora, banda iraniana que toca um death metal que faria os Aiatolás baterem a cabeça na parede.
Montar uma banda de heavy metal nesse canto do mundo tem suas peculiaridades. Só para começar, eles não podem fazer shows por aqui: conseguiram fazer um show em 2005, durante um governo mais liberal, depois de muita briga pelos labirintos da burocracia até conseguirem a autorização. O show tinha sido desautorizado, foi autorizado de novo, e no final aconteceu. Mas das duas noites previstas, a segunda teve de ser cancelada.
Em 2006, eles conseguiram de novo a autorização. Mas logo antes do show os conservadores mudaram de idéia e cancelaram a autorização, e essa foi a última tentativa desde então.
A banda tem tocado só no estúdio em casa, e gravaram dois CDs que, obviamente, não foram lançados no mercado iraniano. Críticos na Europa avaliaram bem o trabalho deles. Caso queira conferir.
O plano da banda hoje é esperar o guitarrista terminar o serviço militar no final do ano, e então poder tirar o passaporte (passaporte, só depois de dois anos de serviço militar). Depois disso, todos pretendem se mudar do país, provavelmente para o Canadá.
A impressão que eu tenho é a de que “sair do país” é o sonho de quase todo liberal por aqui...
Por Fábio Amaral de Castro | Em 05/09/08
MUSIC; Ambassador for a Silenced Music
IT is the first week of spring, and the Bowery Poetry Club is packed with young Iranians who have gathered for an evening of Persian music and poetry. On a small stage surrounded by rough brick walls and a cartoon-style backdrop of the New York skyline, Amir Vahab takes the microphone and asks if there is anyone present from the town of Shiraz. ''Baleh'' (''Yes,'' in Farsi), roars the crowd. ''You know this one,'' Mr. Vahab calls back. ''Sing it with me.''
Mr. Vahab picks up an eight-stringed chogur, nods to his ensemble and begins playing ''Mastom, Mastom'' (''I'm Drunk, I'm Drunk''), a Shirazi favorite. The audience joins in the refrain, and although Mr. Vahab cheerfully insists that the song is about ''being intoxicated by love,'' there is something incongruous about a roomful of Iranian-Americans chanting these words, not just because alcohol is prohibited in their native country but also because in Iran the concert itself might not be allowed.
Ever since the 1979 revolution replaced a Westward-gazing monarchy with strict Islamic rule, the place of music in Iranian culture has been precarious. When Ayatollah Ruhollah Khomeini rose to power in that year, he banned all types of music: recordings, concerts, even the carrying of instruments. Khomeini told Kayhan, Iran's major conservative daily newspaper: ''Music is like a drug. Whoever acquires the habit can no longer devote himself to important activities. . . . We must completely eliminate it.'' Music schools were closed, and it was considered a sin even to sign a document containing the word music, though many people kept their instruments and continued to play in private at considerable risk.
Mr. Vahab, a native of Tehran, left Iran for London in 1976, three years before those laws crippled Iran's music community. In 1981, he moved to New York, where he has become a one-man clearinghouse for Iranian-Americans who want to learn about their culture. He lectures regularly at Columbia and New York University, and he has performed at Lincoln Center, the Metropolitan Museum of Art, the United Nations and the Smithsonian Institution in Washington. But although Mr. Vahab's shows are always well-attended crowd pleasers, his most important work takes place not on stage but in his Upper East Side apartment, where he teaches nearly 100 students on 11 different Iranian instruments.
''It is my responsibility to connect them to their roots,'' Mr. Vahab said recently. While masters of Iranian music like Mohammad Reza Shajarian, Kayhan Kalhor and Hossein Alizadeh take occasional leave of Iran to perform around the world, Mr. Vahab, whose day job is designing jewelry and watches at his store on 47th Street, is a different kind of cultural ambassador.
''He knows how to communicate about the complex musical traditions in a way that regular people can understand,'' said Peter Chelkowski, a professor of Middle Eastern studies and a historian of Iranian performing arts at New York University, who has invited Mr. Vahab to lecture and perform in his classes for 17 years. Mr. Vahab was the host at a recent gathering of Iranian teenagers at the Persian Tea Room in Queens. He provided the instruments and coaxed listeners, all musical rookies, onto the stage to learn to play their native music as their friends stood by, laughing and cheering.
Mr. Vahab and his group, Ensemble Soroush (Messenger Angel), play and sing Iranian Sufi and folk music. At the Bowery Poetry Club, they used three differently shaped drums (daf, zarb and tonbak), which traded rhythms with two lutes (the three-stringed tanbour and the 11-stringed barbat). Over the ensemble, Mr. Vahab improvised, his reedy tenor alternately dronelike and melodic, on lyrics from Hafez, Saadi and Rumi, Iran's great poets.
Mr. Vahab, 44, learned to sing from his mother, a descendant of a long line of musicians. By 13, he was a skilled tanbour player, giving lessons to people three times his age. At 17, he left for Europe, where he became consumed by flamenco and classical guitar. But after a few years, he decided to focus completely on traditional Iranian instruments like tanbour and chogur.
''By living in other countries,'' he said, ''I became more Persian.''


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